16 de novembro de 2008

"Dra. Catarina"

Quando eu era pequenina, assim tipo menina do ciclo (às vezes parece que foi ontem, outras vezes parece que foi há tanto tempo!), lá em casa lia-se a TV Mais. Lembram-se da TV Mais? Era uma revista que, em retrospectiva, me parece muito "cor de rosa" (com a aparência deste blog, tenho muito o direito de me queixar LOL), mas, na altura, parecia-me o máximo. Bem que o meu pai queria que eu passasse a ler um caderno do Expresso, acho que se chamava Vidas, mas nunca lhe liguei. Agora, na TV Mais, o que eu sempre achei piada era a secção dos conselhos sexuais da Dra. Rute, que, ninguém me desconvence, foi a base da personagem "Dra. Rute Remédios" do Herman, nos seus tempos áureos.

Hoje vou fazer uma coisa parecida. Às vezes recebo e-mails de leitores que me fazem perguntas, e, apesar de não ser nenhuma autoridade, lá vou respondendo como posso. O Mestre, que sabe muito mais que eu, nestes domínios, sempre me ajuda e acho que fazemos algum bem. Aqui há dias, o Mestre lembrou-me que, se há pessoas que me mandam e-mails a dizer o que bem podiam dizer em comentários, pode ser que seja porque têm uma certa vergonha (neste país, nem o 25 de Abril nos livrou do puritanismo do "Deus, Pátria, Família" :P), e se há pessoas que têm vergonha de comentar, então pode ser que também haja as que têm vergonha de mandar até um mail. Para essas e para as outras, hoje vou pôr os óculos de leitura, para parecer uma Doutora, e responder a algumas perguntas que me aparecem no mail, como fazia a Dra. Rute.

"Tenho 23 anos e ando com a minha namorada há pouco tempo. Às vezes leio o teu blog e fico excitado com as tuas histórias e quero fazer esse tipo de cenas com a minha namorada, mas tenho medo que ela não queira ou que pense que eu sou esquesito por querer essas coisas ou pior, que corra tudo mal. Eu gosto muito dela e não quero que ela me deixe por causa de uma fantasia.

João"

Antes que pensem cobras e lagartos de mim por estar aqui mostrar os mails que as pessoas me mandam em privado, ficam a saber duas coisas: primeiro, não estou aqui a mostrar mails de ninguém que não tenha consentido que o fizesse; segundo, só estou a mostrar trechos seleccionados e os nomes nem sequer são os nomes verdadeiros (ou, pelo menos, os que assinam).

Voltando ao caso do João, os teus receios são perfeitamente compreensíveis, tal como os teus desejos. Por isso, recomendo que tomes os seguintes cuidados. Em primeiro lugar, não sejas demasiado insistente. Se ainda não o fizeste, mostra este blog à tua namorada, pode ser que ela veja como eu gosto de ser submissa, e que a ideia lhe apele. Se não quiseres fazer nada tão "violento" (por exemplo, se só quiseres amarrá-la, mas não lhe quiseres bater, então talvez o meu blog lhe pareça demasiado assustador. De qualquer forma, lembra-te de que, primeiro, só deves fazer a sugestão, e diz-lhe que "pense no assunto" e que não tem de responder logo. Se ela fizer perguntas, não fujas delas, responde sempre e, sobretudo, NUNCA MINTAS nestes assuntos. Mais vale não fazerem alguma coisa que tu querias que acabar uma boa relação porque traíste a confiança dela. Assegura-a sempre de que só fazes o que ela deixar, e nunca vás para além disso. Se, depois disso tudo, ela disser não, paciência. Tens de compreender que isto não é para todos, há quem não goste (ou antes, há quem goste, porque acho que somos uma minoria). Mas podes sempre voltar a perguntar, dali a algum tempo. Se ela disser que sim, lembra-te de começar devagar, não faças nada muito complicado nem queiras fazer demasiadas coisas da primeira vez. Por expemplo, ata-lhe só os pulsos de maneira confortável. Pode ser que ambos gostem e que queiram experimentar mais vezes, e então podem ir fazendo mais coisas e coisas mais complicadas. Se não, ao menos não fizeste nada que pudesse correr catastroficamente mal, e podem ficar sem vontade de não voltar a tentar, mas, ao menos, não vos aconteceu nenhuma desgraça. Boa sorte!

"Leio sempre o teu blog estou sempre à espera de ver alguma história nova e fico sempre com vontade de que o meu namorado me ate e me trate como o Mestre te trata a ti mas tenho medo que o meu namorado fique a pensar que daí para a frente pode abusar de mim e fazer o que quiser e eu não quero isso. O que hei de fazer?

Maria"

E, no mesmo seguimento, vem este e-mail.

"As tuas histórias deixam-me maluco! Mas eu sou mais como tu que como o teu mestre. Quero que a minha namorade me domine, mas como sou o homem não quero que ela julgue que sou fraco e deixe de gostar de mim. Ajuda-me!

Marco"

Estes dois e-mails levantam uma questão que eu acho que é muito interessante. Desculpem lá, mas vou afastar-me dos e-mails por um momento, porque quero explicar bem isto. A maneira como fazemos amor não reflecte necessariamente a maneira como nos vemos uns aos outros em relação a nós próprios. Pode-se fazer sexo sadomasoquista e ser-se dominado/a sem querer dizer que quem nos domina nesse momento manda em nós nas outras alturas. Está bem que há casais que têm esse tipo de relaccionamentos, em que um membro é constantemente dominante e o outro é constantemente submisso, mas não te que ser assim. No nosso caso, eu acho que tenho uma certa reverência inata pelo Mestre que pode fazer parecer que ele "manda em mim" 24 horas por dia, mas, na verdade, há uma grande igualdade e respeito mútuo na nossa relação. E, mesmo que não haja igualdade, pelo menos o respeito mútuo tem que haver em qualquer relação, no meu entender. Eu, pelo menos, não ficava em nenhuma relação em que o homem não me respeitasse e me tratasse por igual, fosse lá como fosse que fizéssemos amor.

Voltando às questões, digo tanto ao Marco como à Maria que, em primeiro lugar, não julguem que é só a posição do submisso que é difícil para quem não quer fazer este género de coisa. Se os vossos parceiros não vos quiserem dominar, então sinto muito, meus caros, mas é como disse ao João, não insistam demasiado. Se eles concordarem, façam-nos entender que se trata de uma coisa que fazem por prazer, mais nada. Lembrem-se de não agir de maneira diferente depois de experimentarem, se chegarem aí (e espero que cheguem). Se os vossos parceiros vos parecerem tratar de forma diferente, façam-nos ver isso e expliquem-lhes que ainda têm o mesmo estatuto que antes e que é ridículo mudar a maneira como vos tratam só por causa do que se passa quando fazem amor. Lembrem-se ainda que a comunicação é essencial, sobretudo entre ptraticantes de sadomasoquimo. E, sobretudo para o Marco, é perfeitamente ridículo pensar que um homem é fraco ou menos homem porque gosta de ser domindo ou que uma mulher é menos mulher por gostar de dominar (é mais um resquício dos hábitos machistas de que este país nunca se livrou). Aproveito para acrescentar que há pessoas que só dominam ou só se fazem dominar, mas também há pessoas que fazem as duas coisas. Aliás, eu e o Mestre, no princípio da nossa relação, de vez em quando, trocávamos de papéis. O Mestre gostava, mas eu não gosto nada de dominar, não me sinto confortável nessa posição e acho que não tenho jeito, por isso, deixámos de fazer isso.

Já agora, para todos os meus leitores que querem experimentar ou mesmo dedicar-se seriamente ao sadomasoquismo, quero dizer duas coisas. Antes de mais, é sempre boa ideia lerem livros especializados antes de se aventurarem. O Mestre fala-me muito bem de um livro que tem há já muitos anos, e que podem comprar no Amazon, chamado "SM 101", de um autor americano chamado Jay Wiseman. Eu mesma já o li e achei-o muito bom, mas um bocado maçudo e mais orientado para a segurança que para o erotismo. A minha recomendação vai antes para um livro mais recente, de que o Mestre também gostou, que se chama "Bondage for Sex", de uma autora australiana que se identifica como Chanta Rose, e que foi modelo (leia-se porn star) de cenas sadomasoquistas durante uma data de anos e também tem um blog aqui no blogspot. O livro dela é mais curto, tem fotografias pouco explícitas, mas muito eróticas e é sobretudo um manual prático de algumas posições para amarrar o parceiro. Também tem considerações de segurança, e boas, mas toma uma abordagem menos fria que o Jay Wiseman. Por outro lado, é um livro menos completo em termos de práticas do sedomasoquismo em geral. É capaz de ser melhor para pessoas que queiram amarrar (ou ser amarradas) sem a parte das palmadas ou os jogos de poder psicológicos, pelo menos a princípio. Também quero chamar a atenção para o facto de que, quando brincamos, o Mestre pergunta-me muitas vezes se estou bem, se não quero parar e verifica se as minhas mãos ou os meus pés não estão demasiado frios ou se não cortou a circulação, mas eu quase nunca menciono isso, porque, apesar de achar bem que o Mestre faça isso e de ficar muitíssimo grata por ele o fazer e ser um amante tão atencioso, acho que quebraria o ritmo da narrativa e só serviria para nos lembrar de que somos todos mortais e que, se não tivermos alguns cuidados, corremos o risco de nos magoarmos. Mas também quero dizer que corremos riscos em tudo o que fazemos no dia-a-dia, e continuamos a corrê-los porque sabemos que, se tivermos certos cuidados, esses riscos são muito pequenos, e isso não nos deve impedir de fazermos certas coisas de que gostamos. Afinal, este é um blog dedicado inteiramente ao prazer.

Se calhar alguns de vocês vieram cá à espera de encontrar uma história picante e deram de caras com uns conselhos que não vos interessam nada e ficaram aborrecidos. Peço desculpa. Prometo que, para a próxima, vos conto uma história excitante com sexo sadomasoquista, dor e muito prazer.

Espero que tenham gostado, mesmo assim.

Beijinhos.